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One day at a time: uma série leve sem ser leviana

June 9, 2018

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One day at a time: uma série leve sem ser leviana

June 9, 2018

Como a depressão e outras doenças mentais são representadas na mídia? Essa é uma pergunta que, como profissional da área da saúde mental, eu estava me fazendo esses dias. Filmes e seriados muitas vezes apresentam personagens que sofrem de psicopatologias, desde a depressão, ansiedade, fobias, TOC, TEPT, entre outros, mas uma produção em especial me chamou a atenção One Day at a Time, por seu cuidado ao abordar questões complexas. Fazendo um contraponto a uma matéria do Buzzfeed chamada "19 coisas sobre a depressão que a cultura pop quase sempre entende errado"[1], One Day at a Time representa tais questões de forma sincera, realista, e de fácil compreensão.

 

Primeiramente, falando sobre a série, o show retrata a vida cotidiana de uma família cubano-americana com cada personagem encontrando sua própria jornada. Seguindo a história de Penelope Alvarez (Justina Machado), uma veterana do Corpo de Enfermagem do Exército dos Estados Unidos, enfrentando seu retorno à vida civil com muitos problemas não resolvidos de seu tempo no Exército. Ela trabalha como enfermeira no escritório de Dr. Leslie Berkowitz (Stephen Tobolowsky). Após o alcoolismo do marido, Victor (James Martínez), que se deu devido ao transtorno de estresse pós-traumático também por seu tempo de serviço ao Exército, ele tornou-se, nas palavras de Penélope, "inseguro para estar na casa". Eles se separame Penélope leva as crianças com ela. Com a ajuda de sua Mãe, Lydia (Rita Moreno), uma refugiada que deixou Cuba como adolescente após a ascensão de Fidel Castro ao poder, ela está criando seus dois filhos: Elena (Isabella Gómez) e Alex (Marcel Ruiz).Cada episódio da série se concentra em questões importantes que enfrentam as comunidades hispânicas e as famílias em geral. A série trata de tópicos como batalhas de veteranos com TEPT, depressão e ansiedade, bem como sexualidade, identidade de gênero, sexismo, religião, entre outros, com um tom leve mas não leviano.

 

Mas nesse texto quero me focar em um episódio em especial chamado "Hello, Penelope", onde após vários problemas terem sido superados, notada a melhora em sua vida, a personagem Penélope decide parar subitamente com a terapia e com os antidepressivos, sem nenhuma preparação previa e sem consultar seu médico nem seu terapeuta, atitude essa que é apoiada por sua mãe que, por falta de conhecimento, sempre viu essas práticas com maus olhos. A personagem era acometida de TEPT devido ao seu período na guerra e sofria de depressão e ansiedade após o termino do relacionamento. Inicialmente após a parada da terapia e dos antidepressivos começa uma cadeia de eventos que a deixa em uma crise por ela jamais enfrentada. A desregulação emocional pela parada súbita com a medicação deixa Penélope em um quadro depressivo no qual ela mal consegue sair da cama, o que deixa as pessoas próximas sem entender o que se passa. Apesar dos apelos da mãe, que há esse ponto havia mudado de opinião, e pedia que ela voltasse a terapia e aos medicamentos, e dos argumentos de “como sua vida é boa”, nada adiantou.  Isso acontece porque uma pessoa em um quadro depressivo pode precisar de ajuda externa pra superar uma crise, visto que essa pode ser desencadeada devido à crenças disfuncionais ativadas e/ou pela desregulação emocional, causada pelo desequilíbrio neuroquímico, mecanismos esses que até hoje não são bem compreendidos e fazem com que o sujeito possa ter dificuldades até naquilo que para os outros parece o óbvio. Por isso, geralmente quem nunca passou por uma situação parecida pode ter dificuldade de entender um quadro como este.

 

Ao final do episódio, ao lembrar-se de uma dica dada por sua terapeuta, Penélope grava uma mensagem para si mesma, e após ouvi-la percebe que a pessoa que falava aquelas coisas era uma pessoa doente e que precisava de ajuda. Por fim, ela acaba voltando ao tratamento e contando tudo o que havia acontecido ao namorado, de quem ela escondia o fato de ter TEPT e de tomar medicação, ele se mostra compreensivo e diz que passou por algo similar ao retornar da guerra, pois assim como ela, ele era um ex-soldado. A mensagem que fica, ao menos para mim, é que procurar ajuda é sempre melhor do que sofrer sozinho. Pois não devemos nos acomodar com o que nos incomoda.

 

Esta, sem sombra de dúvidas, é  uma das representações mais realistas sobre os transtornos mentais, e algo próximo a realidade encontrada no meu consultório e de outros profissionais das mais diversas abordagens. Fica o lembrete da importância do processo de alta, onde ao se constar as melhoras na qualidade de vida do paciente deve-se planejar como será realizado o fim do tratamento, tanto do ponto de vista terapêutico como do medicamentoso.

 

 

Se interessou pela série? Assista ao trailer abaixo. Os episódios da 1ª e 2ª temporadas estão disponíveis na Netflix.

 

 

 

[1] 19 coisas sobre a depressão que a cultura pop quase sempre entende errado: https://www.buzzfeed.com/annaborges/depressao-e-cultura-pop?utm_term=.fnkpyQZLB1#.qh4RK3lopG

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© 2017 por Priscila Vasconcelos.